Doador de sêmen brasileiro, pai de cem filhos

Publicado 11 de novembro de 2011 por Marcelo Alexandre. Atualizado 22:31.

Sentado na sala da empresa onde trabalha como motorista, na região da Avenida Paulista, em São Paulo, Robson Oliveira Brito tem sorriso fácil e tranquilidade desconcertante. Aos 34 anos, solteiro, tem três filhos (de 18, 16 e 13 anos), mas pode ser pai de mais de 100 bebês. Há um ano, ele faz doações de duas a três vezes por mês ao único banco de sêmen do país que fornece gametas masculinos a clínicas de reprodução de todo o país, o Pro-Seed.
Robson não sabe quantos bebês já nasceram das gestações produzidas por seus espermatozoides. Ele é protegido pela lei brasileira, que impede que o doador seja remunerado e garante sigilo absoluto para o doador. No Pró-Seed, este número nunca será divulgado. Ou seja, nem as mães dos bebês, nem as crianças, terão algum dia como identificá-lo. Robson quer conhecer seus filhos anônimos?
– Tenho curiosidade, mas desde o momento que aceitei o anonimato deixo na mão de Deus. Que eles sejam felizes.
Ele se preocupa que um dia algum de seus filhos anônimos conheça e até se case com um meio irmão.
– Se disser que não, estou mentindo. Tenho um pouco de preocupação sim. Acho meio difícil, mas nada é impossível. Deixa, vamos ver no que vai dar.
Robson é exceção, não a regra. No Brasil, faltam doadores. No Pro-Seed, o número de doadores cadastrados para atender a casais que não conseguem engravidar por infertilidade masculina (azoospermia), ou porque são formados por duas mulheres, corresponde a menos da metade do número de homens que congelaram seu esperma para uso próprio. Criado pela veterinária Vera Beatriz Fehér Brand, o Pro-Seed tem hoje 800 pacientes que congelaram seu próprio sêmen e apenas 370 cadastrados para doação a terceiros. Mãe de dois filhos, por reprodução natural, Vera, informa que mais de 6 mil casais já se submeteram a técnicas de reprodução no Pro-Seed.
A regra nacional para uso de sêmen de terceiros é do Conselho Federal de Medicina. Cada doador pode ser pai de duas crianças – um menino e uma menina – para cada 1 milhão de habitantes. Na Região Metropolitana de São Paulo, por exemplo, onde vivem cerca de 20 milhões de pessoas, cada doador pode ser pai de até dez meninos e dez meninas.
Vera diz, porém, que este número está longe de ser real. A cada cem amostras de sêmen colhida, só 20% geram gravidez de fato. As demais tentativas são frustradas. A cada tentativa, o preço do lote de gametas varia de R$1.300 a R$2.200. A própria Pro-Seed controla o destino dos gametas de cada doador, para que não fiquem todos na mesma cidade. Congelados a 196 graus negativos em botijões, os gametas são enviados a clínicas de reprodução de todo o país.
– No Brasil, não temos doador com mais de 12 gestações comprovadas – diz. – Mas muitas famílias querem sigilo absoluto e não retornam ao médico para dizer se a inseminação deu positivo ou não. Assim, nunca conseguimos ter retorno de 100% dos pacientes. E a chance de meio-irmãos se conhecerem é pequena, mas existe.
Assumpto Iaconelli, da Clínica Fertility , dono de um banco de sêmen que tem 70 doadores, diz que só o teste de DNA pode dirimir dúvidas sobre crianças geradas com uso de gameta terceirizado. O sigilo do doador, para ele, é fundamental:
– A doação é altruísmo e há questões legais, como herança. O sigilo protege todo mundo.
Para ele, a possibilidade de casamento entre meio irmãos gerados por inseminação in vitro ou intrauterina é pequena e, mesmo que ocorra, as chances de doenças genéticas são pequenas. Não é o que pensa a geneticista e bioeticista Nilza Maria Diniz, membro da Comissão sobre Acesso e Uso do Genoma Humano e da diretoria da Sociedade Brasileira de Bioética.
– O casamento entre parentes, no caso, entre irmãos, pode causar a combinação de genes raros, que não se encontrariam nunca, se considerada a população em geral. O risco de nascimento de bebês com manifestações genéticas raras é quase zero. Mas, no cálculo da endogamia (acasalamento entre parentes), feito caso a caso, já vi risco de 1/12 avos numa família. Isso significa que, em 12 nascimentos, pode surgir problema em uma criança. Isto é estrondosamente alto… – diz Nilza. – Os casais veem a sua vontade, não a chance de ocorrer incesto acidental. A mãe quer ter o filho e o médico quer ganhar dinheiro. As pessoas pensam no direito de ter filhos, mas não refletem sobre consequências. É preciso ter um limite do que é razoável para a sociedade.
Luiz Eduardo Albuquerque, da Clínica Fertivitro Reprodução Humana, defende a importação de sêmen de outros países.
– Lá fora há mais opções de doadores. Eu estava na Espanha e vi um médico procurando sêmen de doador árabe.
Encontraram no Cryobank, na Califórnia. Eles têm muitas opções e a qualidade do sêmen é excelente.
No Rio, as clínicas de fertilização precisam recorrer a São Paulo em busca de sêmen de doador. A Anvisa só permite importação se não há aqui amostra com as características que o casal quer. E Luiz Fernando Dale, da Clínica Dale, admite que há risco de incesto acidental.
– Usamos amostras de banco de São Paulo, uma para cada milhão de habitantes, para evitar risco de incesto – diz Dale.
Ele explica que cada coleta de 2ml de sêmen de doador produz, em média, quatro amostras de 0,5ml e cada uma tem chance de até 30% de gerar gravidez. Em tese, um doador brasileiro de 25 amostras teria de seis a sete filhos, segundo Dale.
A resolução do Conselho Federal de Medicina diz que um doador de sêmen não pode ter mais de um filho por grupo de um milhão de habitantes. Mas a aplicação dessa regra não tem controle no país. Tampouco há registro oficial sobre quantos bancos de sêmen existem no país, nem do número de doadores.
Segundo a Anvisa, há hoje no Brasil cerca de 130 clínicas de reprodução assistida cadastradas. Há o controle numérico apenas para embriões: hoje são 80 mil armazenados no Brasil.
Mas a realidade pode ser outra. As famílias não informam clínicas sobre gestações e há importação de sêmen não cadastrado. Por isto, um doador pode ser pai de mais de cem bebês. Nos EUA, há um doador que revelou ser pai de 150 filhos, tema de reportagem do jornal The New York Times. É muito estranho vê-los todos juntos. São todos parecidos, disse Cynthia Daily, ao descobrir que seu filho tinha 150 meio-irmãos…

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